"Um Barco atracado ao cais é sempre um sonho preso"

segunda-feira, outubro 16, 2017

Vozes do Tempo - autobiográfico e catártico

Partilho na íntegra, o texto que li no lançamento do livro "Vozes do Tempo":

"Bem vindos!
Permitam-me que saúde a Professora Doutora Maria Beatriz Rocha-Trindade, a Professora Zulmira Bento, vinda de Coimbra e Laura Garcez, que veio de S. Mamede de Infesta.
Começo por agradecer à Direcção do Grupo Dramático e Escolar "Os Combatentes", por tornar possível esta apresentação do meu segundo livro de prosa.
A minha gratidão é extensiva à GM, nas pessoas de Glória Silva e Teresa Fradique, pela concretização da presente obra.
Agradeço também aos fotógrafos Jorge Cabral, Mário Sousa e à Ana Isabel Veiga, pela última imagem.
Quanto à autoria das mais antigas, perdeu-se na voragem do tempo, sobrando a da capa, executada na, há muito desaparecida Foto Artis, situada nos anos sessenta, na Rua do Sacramento a Alcântara. Por último, agradecer a colaboração especial da Esmeralda Veloso e o precioso prefácio de Maria Teresa Bispo.

Acerca dos oito textos de "Vozes do Tempo", importa salientar que a sua maioria foi escrita na primeira metade dos anos oitenta, sendo os dois últimos da década seguinte.
Todos eles são autobiográficos, mesmo quando falam de outras pessoas, como Manuel Losté, personagens reais que se cruzaram comigo ao longo desta caminhada que é a assistência.
Contudo, o mais longo - "Pardieiros" - é catártico, pois através dele tentei justificar o que nunca me foi explicado, por aqueles que me trouxeram a este mundo, apaziguando o desconforto.
Acontece hoje uma coincidência formidável.
"Pardieiros" desenrola-se, em parte, na Fonte Santa e este livro é lançado perto da Possidónio da Silva, onde a avó paterna resgatou o meu Futuro, levando-me para a sua casa de bonecas, com um parapeito onde sonhei viagens, seguindo o voo dos pássaros.

No primeiro livro de memórias, intitulado "Degraus", falei da Carmo Leiteira, que urinava no leite que vendia porta a porta e da Luísa Choca, que era tão bêbeda, que nem se apercebeu que uma rata de cano de esgoto comera a cana do nariz do neto de colo que dormia numa enxerga.
Eram assim os Becos dos Contrabandistas, no tempo em que o ditador de Santa Comba debitava ditames, com voz trémula de fantoche de feira e a Diva Amália exultava: "Os filhos sorriem e o Manel também, Não há melhor vida ca 'aquela ca gente tem!"
Como escreveu Isabel do Carmo "vivi nesse país e não gostei!"

Trago lembranças terríveis desse tempo e todas elas doem, sejam escritas ou jamais reveladas.
Passou-se fome nas cidades mas havia umas senhoras benfazejas, que a troco de rendas e bordados, executadas pela vista cansada de velhotas carentes, pagavam com leite em pó e outros víveres, que ajudavam a minorar uma pobreza envergonhada que tantas vezes recorria às casas de penhores.

Há ano e meio, os 63 anos que desfrutei na Praça da Armada, sofreram duro revés. Afinal, era infeliz e não sabia...
Ocupado com o trabalho, o estudo, o associativismo e outras tarefas, apercebi-me que teria de reagir, quando decorrido mais de meio século, voltou a chover no meu quarto, retrocedendo à infância de menino pobre.
A rua Prior do Crato tornara-se numa espécie de enclave asiático, desaparecendo os sinais da Alcântara genuína.
Deambular por Lisboa é confirmar o pessimismo de Pérez-Reverte, que considera o excesso de turismo a morte da cultura das cidades europeias.
Este livro encerra um longo ciclo. Outra história começou em Almada. Talvez um dia fale disso..."

Luís Filipe Maçarico, 12-10-2017

[Fotografias de RB, AIV, Joaquim Avó e LFM.]


O Circo Sinistro dos Incêndios

Fotografia do "Público"

O clima está a mudar, é indesmentível. Sente-se, desde há anos...
Os incêndios porém (dia 15 de Outubro de 2017 foi o pior dia do ano) continuam, assustadores.
Não entendo como é que os senhores dos gabinetes, no final de Setembro, fizeram a estatística do território ardido e se desactivaram prevenções, continuando com as ridículas fases e aquelas designações inventadas por idiotas burocratas, que deveriam deixar de ser proferidas, como "época dos incêndios" e "teatro de operações". Que circo sinistro é este? (Suas Excelências ignoraram as preocupantes previsões meteorológicas e repetem-se na lamúria pestilenta)

Por outro lado, por que razão ninguém fala dos MANDANTES? Porque motivo a Judiciária não apura a responsabilidade dos que - segundo ouvi no Fundão - pagam aos incendiários mais do que um salário de juíz? Para quando - em vez dos comentários ficarem apenas, contra os malfeitores que no terreno fazem mal a pessoas, animais, bens e paisagem - as vozes exigem justiça, contra quem está escondido a mandar/ pagar?
Será por motivos políticos, como já ouvi dizer, a ver se este governo cai?
E que governo é este, que não tira lições sobre o que acontece, há quase meio ano, mantendo os mesmos desabafos (e uma evidente impotência) acerca de um horror que engole lugares florestais e espaços urbanos?
Voltaram a desparecer vidas e haveres, consumidos pelos incêndios no Norte e no Centro do País.
Já não se aguenta ouvir/ver os argumentos, que desde Junho, antes do Verão começar, nos invadem na rádio, na tv, na net e nos jornais, tipo disco riscado...[comentadores, governantes]

Porque razão as árvores continuam a rodear habitações e o fogo entra dentro das localidades?
Porque razão o povo menos envelhecido não se voluntaria, para limpar o território, onde tem os seus haveres, cheio de mato combustível à entrada e no meio de aldeias, vilas e cidades?

São já 35 os mortos (actualização às 18:00 de hoje, dia 16), o primeiro ministro falou de madrugada, afirmando que vamos continuar a assistir a esta calamidade, escudando-se com os incêndios da Califórnia e da Galiza, que a seca é tremenda e o clima não sei quê, chegando a responder a uma jornalista "Não me faça rir a esta hora!", a ministra diz que seria fácil demitir-se, pois assim gozaria as férias que não teve, entretanto, uma popular, desesperada, gritava [na tv da mercearia, onde há bocado fiz algum abastecimento de víveres] que não aparecem bombeiros e eu pergunto, se por acaso encontram nos "mouros", como chamam os do norte aos do sul, o alheamento, em termos da limpeza das suas ruas e casas, rodeadas de montado, que é a pele do Alentejo, no qual o fogo não consegue entrar...
Na rádio escutei o presidente da Marinha Grande lamentando que o Pinhal do Rei ardeu em 80% da sua totalidade. É um filme de horror, com contornos de grotesco e selvajaria.
Apetece perguntar, perante o caos avassalador: Mas isto é um país?


[Repito: Por que razão ninguém fala dos MANDANTES? Porque motivo a Judiciária não apura a responsabilidade dos que pagam aos incendiários para destruírem a própria terra?]

Luís Filipe Maçarico (Texto) Paulo Pimenta/ Público (Fotografia)

quinta-feira, outubro 12, 2017

Lançamento de livros sexta feira 13 às 21h no Grupo Dramático e Escolar "Os Combatentes"


Sexta feira 13 de Outubro de 2017, pelas 21h, serão apresentados dois livros, um de Poesia (de Fernando Duarte) intitulado "A Hora das Coisas" e outro de Contos (de Luís Filipe Maçarico) com o título "Vozes do tempo".

A sessão decorrerá no Grupo Dramático e Escolar "Os Combatentes", sito na Rua do Possolo 7 a 9.

Apresenta o primeiro livro (cujo prefácio da segunda edição é de sua autoria) o próprio Luís Maçarico e Teresa Bispo diz poemas daquela obra.

Será Teresa Bispo a apresentadora de "Vozes do Tempo" e Esmeralda Veloso fará a leitura de contos breves.

Esta iniciativa, inserida na celebração dos 111 anos da colectividade, conta ainda com animação musical, a cargo de João Pedro Duarte.

Tiago Mendes, fará a introdução e dará as boas vindas ao público. Prevê-se que quem visitar nesta sexta feira dia 13 de Outubro, o Grupo Dramático e Escolar "Os Combatentes" ( que nasceram em 1906 para combater o alcoolismo e o analfabetismo) vai assistir a bons momentos de convívio.

LFM (texto e foto) FCD (foto e cartaz)

terça-feira, outubro 10, 2017

O Milagre da Carris


Quero agradecer à Câmara Municipal de Lisboa, por me ter obrigado a andar a pé, num entardecer muito belo, à beira Tejo, porque os autocarros (28 e 60) que tentei apanhar para o Cais Sodré, não pararam, pois vinham cheios.
Desde que a CML tomou conta da gestão da Carris, é mais que evidente que os transportes na capital melhoraram. 
Há dias, necessitei de me deslocar até à Gráfica onde os meus últimos livros têm sido impressos. Chegado  ao Cais do Sodré de barco (tenho o passe da Transtejo) fiquei algum tempo esperando por um autocarro, que na informação patente no quadro eléctrico apenas iria aparecer dali a mais de 50 minutos.
Apanhei o Metro até Santa Apolónia (tive de mudar de linha na estação Baixa Chiado) e optei por uma carreira outra, que me levou até às imediações do local onde pretendia reunir.
São apenas dois exemplos singelos de como é bom ter bilhetes pré-comprados para utilizar nas maravilhosas viagens do Mundo Novo do Doutor Medina.
Suei em ambos os casos e só posso estar grato por a CML ter contribuído para a melhoria dos meus sistemas muscular, cardiovascular e claro, diabetes.
Um Grande Bem Haja aos Eleitos do Município por este Milagre que é a Carris (ah! A fila na rocha do conde de Óbidos era enorme e ficaram a chuchar no dedo à espera de Godot, enquanto eu me deliciei com o extraordinário passeio a pé e seus benefícios para a Saúde!)

Luís Filipe Maçarico (texto) Fotografia retirada da Net (Museu da Carris)

sexta-feira, outubro 06, 2017

A Voz do Poeta 2

Grato a quem filmou a sessão de Cante e Poesia, ocorrida em 1 de Outubro de 2016, pois possibilitou que agora possa partilhar a poesia então recitada por mim.
Nestas imagens sonoras, leio o grande poema, do enorme poeta Mestre Romão Moita Mariano, de Pias, "A Malhar em Ferro Quente".
Bem haja ao repórter.
Podem escutar clicando neste link:

http://provodamusic.ru/play/poesia-quot-a-malhar-em-ferro-quente-quot-pelo-poeta-alentejano-lus-maarico/aK0ej7yP-UA.html

Luís Filipe Maçarico

A voz do Poeta

Já publiquei este poema aqui.
Mostrei-o no livro "Morada da Poesia", levei-o a vários lugares, como Morille, em Julho de 2017.
Em 1 de Outubro de 2016 apresentei-o no Fórum Romeu Correia, em Almada, a convite do Grupo de Cante "Amigos do Alentejo", do Feijó.
Alguém gravou esse momento e aqui estou eu em pessoa, com a voz mostrando o eterno sentimento de admiração e respeito de um alentejano pela caminhada dos velhos alentejanos.
Ora oiçam:

http://provodamusic.ru/play/poema-quot-olho-nos-olhos-estes-velhos-quot-da-autoria-do-poeta-lus-maarico/og2mXPm5Xqo.html

Luís Filipe Maçarico

quinta-feira, outubro 05, 2017

Reflorestação por Grupos de Cidadãos. Algumas Questões. Segunda Reflexão.


Espanta-me que uma Universidade já se tivesse comprometido e desenvolvido - em plena campanha eleitoral - acções que me parece carecerem de reflexão, no sentido da reflorestação de terrenos que configuram rampas, frágeis perante um Outono ou Inverno chuvosos.
Uma coisa é certa: As serras, a terra, o planeta precisam, para o equilíbrio da Vida, do envolvimento das pessoas, para que haja um bom retorno dos comportamentos, em prol da melhoria do ar, da paisagem, dos cenários naturais (intervencionados pelo Homem no bom e no mau sentido) da agricultura sustentável, da economia que a terra gera e do bem estar de todos.
Bons ecossistemas  beneficiam a saúde e até o pensamento feito verso de Sebastião da Gama, o poeta da Arrábida, que deixou, em jeito de herança uma frase lapidar:
"Pelo sonho é que vamos!"

Luís Filipe Maçarico (Foto e texto)

Reflorestação por Grupos de Cidadãos. Algumas Questões. Primeira Reflexão.


A maldição dos incêndios, e particularmente em duas das serras que ciclicamente têm sido muito afectadas, teve recentemente um polémico virar de página.
Aparte algumas intenções eleitoralistas, que suponho serão devidamente planeadas a seu tempo, grupos de cidadãos propõem-se "reflorestar", através de acções idealistas, que não têm em conta as primeiras chuvas, que estão a demorar, com o consequente arrastamento de terras, mais que provável.
Há quem assegure que por causa da mudança visível do clima. certas espécies não irão além da meia dúzia de anos de existência, pois necessitarão de altitude para resistirem e se desenvolverem.
As intenções generosas e  as atitudes de cidadania serão sempre de saudar, não me parecendo  acertado demover os grupos interessados  nestas práticas  de cariz comunitário, ambiental, com repercurssões positivas na vida dos seres.

Luís Filipe Maçarico (Foto e texto)

terça-feira, agosto 29, 2017

Treze Anos a Fazer este Blogue

Só agora - quase decorrido um mês - é que venho assinalar a passagem do 13º Aniversário deste blogue, que começou no início de Agosto de 2014.
"Enquanto houver estrada para andar/ A gente vai continuar!".
É assim, com esta forma singela mas firme - e citando Jorge Palma - que prometo resistir, através de palavras cruas ou ternurentas, poéticas ou frontais.
Bem Hajam a todos os que passam por estas páginas, seguindo o palpitar de uma vida, feita de projectos e (muita) itinerância.

Para os que ficaram de fora desta caminhada, resta-me esperar que o peso na consciência lhes doa tanto, que venha ao de cima a mentira e a crueldade, que praticaram nesta terra, morrendo sem perdão.
Porque depois de sofrer traições, só se não aprendesse nada com a vida perdoaria, dando a outra face..

Como na Religião e Moral que tive de frequentar no tempo do Fascismo, a mensagem do Padre conspícuo, guloso por donativos pecuniários dos alunos, com gráficos a mostrar a turma que contribuía mais para os "pobrezinhos",entrava a cem, saía a mil, sou um descrente que vive tranquilo, acreditando na força do Cosmos. E a Natureza está a reagir. Continuarei a viver assim: criticando o que está mal, elogiando o que é bom, partilhando a flor do silêncio.

Luís Filipe Maçarico - texto (Fotos de: LFM, Miguel Fernandes e Mário Sousa)
Agradecimento a Maria José Afonso (Pias) pela expressividade.

A Revolta dos Santos

                                      

2017 tem-se revelado um ano estranho. E ainda vai a pouco mais de meio...

Confesso que uma das coisas que mais me impressiona é o espaço espiritual - religioso estar a emitir sinais muito evidentes e regulares, que importa questionar e reflectir.

Há semanas atrás caiu um andor, em cima de crentes, no Norte do país, ferindo romeiros, e no Funchal, uma árvore matou mais de uma dezena de pessoas, que participavam noutra festa religiosa.

Em São Fiel (Lardosa), um colégio com século e meio de existência, durante os calamitosos incêndios, que este ano nos têm deprimido, ardeu, e com ele uma capela, antiga, perdendo-se um património impressionante...

[Ardem casas quase todos os dias, morre a Natureza, seres humanos, muitos animais...] Estarão os Santos zangados com a maldade humana? (pensaria assim se fosse crente...)

Porém, como se isto não bastasse, acabo de saber que um raio caiu - na romaria da Serra de Arga, - cujo mosteiro e paisagem envolvente revisitei no final de Maio.

No  sul, a chuva impediu que Santa Luzia tivesse saído em procissão, assinalando o final da Festa Rija de Pias.
Que se passa com os Santos nesta terra?

LFM (Texto e fotos)

sábado, agosto 26, 2017

Atraso de Vida & Chicoespertismo no dia a dia dos cidadãos

A adivinhar pelo andar da carruagem....
A Carris está a ser gerida pela CML, desde o início do ano. E que constatamos? Com a turistada a aumentar, as carreiras não são mais constantes. Viva o povo apertado dos transportes públicos,  em que aqueles que são velhos não deviam existir, pois os lugares - destinados a pessoas com mobilidade reduzida - estão geralmente ocupados por jovens estrangeiros, em cujos países seguramente terão menos possibilidade de fazer o que fazem por cá: patas em cima de bancos do metro, etc.

Carregar bilhetes para autocarros, eléctricos e ascensores da Carris, que também servem para o Metropolitano, é uma agrura, caso se deseje a identificação para efeitos de IRS.
Entregam-nos um documento, onde só falta explicar a cor das cuecas que vestimos ( e ao qual temos de responder rápido, pois tem de ser entregue em cinco dias) e passado algum tempo podemos ir buscá-lo, juntando aos comprovativos de despesas.

A Transtejo também usava este esquema, tendo começado este mês a inserir o nosso número de Contribuinte, no próprio instante da compra, poupando-nos a uma digressão mensal surrealizante, que implicava o pedido do documento, o seu preenchimento, a entrega e a recolha.

Há muito tempo que o Metro Sul do Tejo e a Fertagus preparam os seus equipamentos informáticos, fornecendo logo esses dados, que a Transtejo esteve meses para alcançar tal evolução, no sentido de nos facilitar a vida e a Carris insiste em usar.

A Carris continua [agora nas mãos da gestão medinesca da Câmara de Lisboa] a obrigar os utentes a repetir mensalmente esses passos, de um estúpido calvário que os consumidores não merecem.
Apetece mandar os cabotinos das Administrações, que mostram com essas atitudes a falta de respeito que a populaça lhes merece, para certos lugares.

Mas também apetece dizer aos do povo, que esses espelhos escaqueirados são resultado das suas escolhas políticas, originando espelhos retorcidos, que consubstanciam o que gostariam de ser: bem vestidos, generosamente pagos e se possível, espertalhaços em expedientes.
Porque ainda agora - depois de nefastos incêndios, segundo me relataram amigos credíveis, quando um Município enviou os seus agentes para fazerem o levantamento dos prejuízos, houve gentinha que se aproveitou e exagerou na relação dos estragos.
Estou a lembrar-me do restaurante gerido pelos carteiristas que mamava centenas de euros aos clientes, dos taxistas que acordam mal dispostos e nos insultam, se preferimos um itinerário menos entupido, etc. Não somos todos assim, mas uma parte substancial transpira chico-espertismo

Apetece mesmo mandar tudo à merda, porque o atraso também tem a ver com os cidadãos, que não agem, arrastando absurdos quotidianos, por sua própria inépcia, que acabam por prejudicar a Comunidade toda. Como iremos ver no próximo processo eleitoral para as autarquias.

Luís Filipe Maçarico (texto e fotos)

quarta-feira, agosto 23, 2017

Vinhos de Pias que não o são!!!

                                  
                                         

Constato no dia a dia, em mercearias de bairro, como em supermercados, a abundância de vinhos que utilizam a marca PIAS.
Como muito bem escreveu, na sua página do Facebook, o Amigo José Borralho, ilustre poeta e cantador: "Vinhos de e em Pias, só os da Sociedade Agrícola de Pias-Margaça e os vinhos do Monte da Capela; mais nada!"

Não seria então - em conjunto com as autarquias - proceder à valorização da terra, registando os vinhos  genuínos, provenientes de vinhas e produtores pienses?

Já existe esse selo de autenticidade, noutras regiões, em relação aos mais diversos bens alimentares, de origem e tradição...
Porque razão em Pias não se encontrou ainda um caminho semelhante, para defender a identidade local? 

O Património não pode ser deixado nas mãos de quem o adultera, ou seja, os intrusos, que de fora re/inventam um vinho, que não pertence àquela terra: resultando dessa manobra o engano do consumidor, que compra como sendo Pias o que até pode ser mexicano... Em tempos vi uma das muitas boxes com tal designação, que invadiram o mercado, engarrafada no Cartaxo...

Ignorante confesso  - na questão do registo de marcas, - penso contudo que é viável implementar a chamada "denominação de origem".
Amigos de Pias: É importante também lutar por isto, não é?

Luís Filipe Maçarico (texto e imagens)

sábado, agosto 12, 2017

Não Posso Calar esta Revolta!


Há dois meses que o país não pára de arder, o fogo entra pelos parques dos perímetros citadinos, ardem casas nas vilas e cidades, como nunca se tinha visto, evacuam-se aldeias, a insegurança e o medo fazem estremecer idosos, que precisam de cuidados especiais e sobretudo de tranquilidade, as vias férreas, as estradas nacionais, as autoestradas tudo é encerrado devido às chamas. As perdas são enormes.

Do Norte ao Sul, passando pelo Centro, de forma impiedosa Portugal arde como nunca tinha sucedido e a culpa é das trovoadas secas, da seca, da descoordenação, das avarias do maldito Siresp, de tudo, - menos dos inimigos da Natureza e da escala humana, cada vez mais debilitada, com mortes e abandonos, com muitos feridos, com a intranquilidade e o sofrimento desventrado, por estagiários dos mírdia, a carregar com black & decker nas feridas da alma, de quem perdeu familiares, animais, tractores, viaturas, haveres, agricultura, sonhos, vida.
Depois do corrupio de abraços chorosos e de ter ficado tudo como dantes, o país continua a ser, desde Junho até Agosto, uma sangria de lumes ferozes, a devorar mais e mais árvores, casas, avifauna e flora, pintando de negro os lugares que não escapam à sanha destruidora.
Não sabemos quem está por detrás disto, se são interesses económicos (parece que sim) se são motivações políticas (há quem desconfie) ou sobre quem serão os que mandam deitar fogo a tudo (nunca sabemos quem são esses mandantes), além das incúrias e do desmazelo, que enche os lugares, com teias de verde a envolver os edifícios, quem quiser que desbaste e depois chora-se baba e ranho aqui d'el rei que o fogo está a abeirar-se da residência...
Nunca sabemos - para lá das imagens dignas dos filmes mais horrendos, do fogo a engolir o verde - porque sucede todos os anos e em 2017 mais do que nunca, esta calamidade que arrasa tudo, estremecemos por cada hectar que desaparece com a riqueza que antes tinha e deixamos de acreditar em misericordiosas entidades, que recebem dinheiro com fartura, em programas televisivos que parecem festivais de vaidade travestida de caridade. É a seiva comportamental do país que temos: vale mais parecer em vez de ser. Alardear no lugar de actuar. Não se aguenta tanta miséria mental. 
Entretanto, anunciaram-se medidas, fez-se uma lei, reuniões de conselho de ministros, pressões partidárias, para execrar o eucalipto.
Contudo, nos sítios ardidos replantou-se a planta "maléfica". O caricato (e eterno) ministro da agricultura chegou a anunciar que não se podiam perder os fundos europeus no valor de milhões para a reflorestação com eucaliptais em barda...
Impedir o negócio em torno da madeira queimada, denunciar quem são os bandidos deste desmedido atentado, mudar os ministros que fingem não estar mortos, continua a ser tabú e nada se altera.
Bombeiros acorrem, com meios terrestres e aéreos, por vezes obsoletos, autarcas deploram a falta de actuação inicial mais eficaz, populações criticam o atraso, entre o fogo que começa e a acção salvadora, que apenas se desenvolve passados dias...
Baseio-me no que oiço na rádio, no que leio em jornais, no que vejo de soslaio nas imagens insuportáveis.
Até quando vamos assistir a este desmoronamento da nossa essência?
Não posso calar esta revolta!
Luís Filipe Maçarico (texto)
Fotos da Internet.

segunda-feira, julho 31, 2017

Encontro da Aldraba em Tondela


Durante o último fim de semana de Julho de 2017, a Aldraba - Associação do Espaço e Património Popular, realizou mais um dos seus Encontros, no concelho de Tondela, com o apoio na organização, e na sua concretização no terreno, de Elísio Luís Chaves, Presidente da Casa de Tondela em Lisboa, cuja parceria em muito contribuiu para o êxito da iniciativa, graças ao conhecimento privilegiado que Elísio possui do território onde nasceu e pelo qual pugna vibrantemente.

Os quase 30 participantes concentraram-se, no sábado 29, junto à Igreja Matriz de Tondela, seguindo para Molelos, onde se visitou a Olaria de Barro Preto, de António Matos Marques, um artesão cujas peças têm a beleza e a perfeição das obras feitas à mão, que apresentam uma grande resistência e qualidade.

As diversas fases da criação na sua oficina, foram recriadas e explicadas com uma gentileza e um perfeccionismo que saudamos, augurando longa vida pessoal e profissional. Os visitantes não esquecerão o acolhimento e a sabedoria patenteadas.

Seguiu-se um almoço delicioso (de arroz de marisco ou bifinhos com cogumelos) que mereceu aplauso dos convivas, no "Ponto de Encontro", que é uma boa referência para os viajantes, que por aquelas bandas desejem encontrar um oásis para o paladar, pela confecção gostosa e pelos preços económicos.

Após o almoço, houve uma paragem surpreendente na Biblioteca Tomás Ribeiro, para - com o comissário da exposição - saber quem foi o "Tony das Bananas", que criou um empório na África do Sul, para onde emigrou, voltando de lá comendador. Coincidência extraordinária, foi Salomé Almeida, a primeira presidente de um Sindicato português, ter encontrado numa reprodução do "Século de Joanesburgo", a fotografia de Júlio Navarro, primeiro jornalista daquele jornal e irmão desta associada da Aldraba.

A visita seguinte efectuou-se no Museu Terra de Besteiros, em tarde quente, constituindo surpresa inaudita, pela viagem proporcionada - através da narrativa museológica - desde os primórdios à actualidade, pelo concelho de Cláudio Torres. Depois dos achados da Pré-História e da Época Romana, da Idade Média e da Industrialização, foi a vez de constatar profissões que marcaram o desenvolvimento da vila e das aldeias: o linho, os cesteiros, o funileiro, a agricultura, os sanatórios do Caramulo...

A descoberta da ACERT/Trigo Limpo, com visitação de todos os espaços, sendo o grupo guiado por Miguel Torres, foi um espantoso momento de confirmação de um equipamento e de uma história cultural fabulosa. A Associação e o seu Grupo de Teatro, que são conhecidos dos portugueses, tem mais de 3.000 associados.

O primeiro dia do Encontro em Tondela, completou-se com um grande momento de interacção, a cargo da AFERTourigo, que presenteou os viajantes com um lauto jantar, que, desde a sopa de couves, muito saborosa, passando pelo lombo com batatas, de tempero bastante apetitoso, culminando com maravilhosa fruta da região, regalou os convivas, visivelmente agradados com o saber e os sabores daqueles que dirigiram nessa noite inesquecível a cozinha e suas iguarias.

Mas a Associação de Tourigo foi ainda mais longe, apresentando um espectáculo folclórico repleto de vivacidade, ritmo e colorido, que mereceu fortes aplausos da encantada assistência, culminando com um convite para a dança pelas raparigas aos homens da Associação do Espaço e Património Popular, seguindo-se igual convite às senhoras presentes, associadas da Aldraba.

Numa breve mas simpática cerimónia, os representantes das duas associações saudaram o trabalho em prol do património e da memória, que ambas desenvolvem, acolhendo lembranças de Mestre Albino Moura, conceituado artista plástico, trazido pelo consócio Rodrigues Vaz, cuja esposa, Helena Justino, prestigiada criadora, também ofertou a AFERTourigo. Luís Filipe Maçarico, antropólogo e poeta, entregou o seu mais recente livro de poesia sobre a Tunísia.

O Presidente da Aldraba exaltou a fraternidade com que a sua Associação foi recebida, celebrando os valores que o Associativismo evidencia, tendo o Presidente da Mesa da Assembleia Geral da colectividade visitada exultado com a visita, desafiando os visitantes a voltarem sempre que o desejem, pois serão sempre bem vindos!

Grande parte da manhã do domingo 30 de Julho decorreu nos Museus do Caramulo (colecção de Arte, onde se incluem obras de Amadeu Sousa Cardoso, Salvador Dali e Miró, entre muitos outros artistas; mostra de brinquedos e exposição substancial de automóveis de todo o tipo, desde os primeiros exemplares, usualmente designados por calhambeques, até aos contemporâneos, das marcas de luxo, só acessíveis a uma elite, até aos populares minis e carochas. E também os carros de Salazar e o da fuga de Caxias, consumado por comunistas presos pelo Estado Novo.

Na sequência de uma pausa no miradouro a partir do qual se pratica parapente, o grupo almoçou no Restaurante Montanha, no Caramulo, dividindo-se entre o arroz de pato, a chanfana, o cabrito ou os rojões, que agradaram ao paladar mais exigente. As entradas lautas, o vinho, as sobremesas, deliciaram os viajantes.

A viagem a Tondela terminou na Associação das Mulheres Agricultoras de Castelões, que informaram acerca da manufactura, em teares antigos, de prodigiosas toalhas e outros artefactos para a vida doméstica: guardanapos, toalhas, etc., lembrando as fases da transformação ancestral (com mão de obra sábia) do linho: colher, ripar, molhar, malhar, moer, espadelar, assedar, fiar, ensarilhar e dobar. Uma das senhoras afirmou que a linhaça a curou de cinco pneumonias…

A despedida de Tondela ocorreu a meio da tarde de domingo, com o mesmo espírito fraterno, que animou todo o encontro e criou bem estar a todos.

A Aldraba e a Casa de Tondela evidenciaram neste Encontro o melhor que o Associativismo tem: o companheirismo e a valorização do património imaterial e material.

BEM HAJAM A TODOS!

Luís Filipe Maçarico (texto e fotografias)